Esse acabou de sair do forno! Escrevi assim que terminei de ler.
Conheço
pessoas que disseram que quase choraram ao terminar de ler, e logo
depois me indicaram o livro, quiseram me emprestar, comprar para mim
(leia-se "uma pessoa"). Então pensei: "deve valer a pena, mesmo, ler!". Umbigo sem Fundo
talvez seja mais interessante por nos mostrar como a maioria das
famílias realmente é. A sociedade foi acostumada a ter aquela ideia de
"família feliz", onde todo mundo é próximo e solidário com os problemas
de outra pessoa. E quando alguém destoa desse modelo é julgado como a
pessoa mais esquisita do mundo, sem sentimentos, sem sensibilidade, blá,
blá, blá. Mas "existem verdades mais verdadeiras do que a própria
verdade" e quase nunca é assim.
A
família Loony é feitas de pessoas que vivem em seu próprio mundo. Com
problemas individuais, que talvez nenhum dos outros entenda. Ou talvez
seja apenas afastamento mesmo. Por vezes, as pessoas convivem com
pessoas que elas não conhecem, mesmo que elas estejam em suas vidas
desde quando nasceram. E não ter proximidade não tem problema nenhum.
Isso não quer dizer, necessariamente, que não se gosta ou se ama essas
pessoas, mas só que não se tem intimidade.
Como em
filmes, escolhi um personagem pelo qual torcer na história, o irmão
mais novo, Peter. Ele é visto pela família como um sapo (e retratado
assim por Dash), uma pessoa estranha, que ninguém conhece direito, e
muito menos entende. Tem a auto-estima baixa, se acha um fracassado.
Porém, sua atitude diante do tema central do livro, o divórcio de seus
pais, é simplemente levar "na boa". Ao contrário dos outros irmãos,
Dennis e Claire, que se preocupam com os motivos que levaram seus pais a
tomarem essa decisão, Pete nem parece se preocupar com isso. Minha
impressão foi como se o caçula quase dissesse: "Isso não é problema meu.
Minha família está se esfacelando, mas ela sempre foi esfacelada,
mesmo! Vou cuidar de minha vida e tentar resolver meus próprios
problemas". Realmente gostei dessa atitude.
Quanto
ao irmão mais velho, Dennis, ele simplesmente pira com a situação. O que
é engraçado de ver. Tenta entender de todos os ângulos, faz perguntas a
seus pais, que lhe respondem de maneira tão simples, e parecem tão
conformados com suas escolhas, que o encasqueta mais ainda. Seus pais
parecem tratar o assunto com muita naturalidade, e certa indiferença,
apesar de Dash conseguir mostrar alguns momentos de angústia, dos dois.
Aliás,
seus desenhos, apesar de simples (parecidos com os meus - o que talvez
explique minha simpatia com seus traços) não deixam a narrativa
monótona. Os quadros e diálogos passam rápido, se tem visão de todos os
ângulos. A impressão que se tem é que se está assistindo a um filme num
papel. Os quadros aproximam ou se afastam dos objetos em foco, todos os
personagens são focados, cada um e sua expressão no momento. O que nos
introduz de forma perfeita a essa característica de Shaw é a "cena" de
abertura do livro. Um jantar confuso. E pensei: "esse, com certeza, não é
um quadrinho chato!".
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| "BOM, É SÓ QUE NÓS NÃO NOS AMAMOS MAIS." |
Quanto a
cena final, o que Dash Shaw dá a entender é que algumas pessoas estão
tão acostumadas a estar do lado de alguém que têm a impressão de que
precisam daquela pessoa - principalmente depois de 40 anos -, e até que a
ama, porém isso nem sempre é amor. Talvez seja o companheirismo, a
lealdade, mas amor, sei não. Elas acreditam até sentir saudade, mas
acredito que tenha mais a ver com a quebra do costume, da rotina.
Bom, essas são as minhas considerações sobre Umbigo.
E, sigam o conselho do autor: deêm um tempo entre uma parte e outra.
Fez bem para minha leitura. Ah, digamos que estejam preparados para o
dinamismo da história!
Uma pequena entrevista com Dash Shaw:
Informações
Título Original: Bottomless Bellybutton
Tradução: Érico Assis
720 Páginas (um Senhor Lapa)
Lançado em 2009
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS - Selo QUADRINHOS NA CIA







